Fahrenheit 451 (Ray Bradbury)

cvr9781451673265_9781451673265_hrBRADBURY, Ray. Fahrenheit 451. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2013.

 

 

 

 

O Fahrenheit 451 é uma distopia de ficção científica, escrita pelo norte-americano Ray Bradbury (1920-2012) e adaptado para o cinema pelo diretor francês François Truffaut (1932-1984) em 1966 – inclusive, é um filme bem maravilhoso. No resumo de apresentação do livro, no site da editora, consta:

“o livro descreve um governo totalitário, num futuro incerto, mas próximo, que proíbe qualquer livro ou tipo de leitura, prevendo que o povo possa ficar instruído e se rebelar contra o status quo. Tudo é controlado e as pessoas só têm conhecimento dos fatos por aparelhos de TVs instalados em suas casas ou em praças ao ar livre. A leitura deixou de ser meio para aquisição de conhecimento crítico e tornou-se tão instrumental quanto a vida dos cidadãos, suficiente apenas para que saibam ler manuais e operar aparelhos.”

Além de, claramente, premonitório, o livro é maravilhoso para todo amante de livros e bibliotecas, abaixo alguns trechos que gostei muito:

“sentiu-se como um homem que havia sido atirado de um precipício, girara numa centrífuga e fora desovado no alto de uma cachoeira que despencava numa queda sem fim no vazio sem fim e nunca… chegava a tocar… o fundo… nunca… nunca… não, não chegava realmente… a tocar… o fundo… e caía tão rápido que nem roçava as bordas… nunca… chegava a tocar… coisa alguma.”

“Você pergunta o porquê de muitas coisas e, se insistir, acaba se tornando realmente muito infeliz.” (…) “Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum”  (…) “Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso.”

“Talvez os livros possam nos tirar um pouco dessas trevas. Ao menos poderiam nos impedir de cometer os mesmos malditos erros malucos! Não ouço esses idiotas do seu salão falando sobre isso.”

“A maioria de nós não pode sair correndo por aí, falar com todo mundo, conhecer todas as cidades do mundo. Não temos tempo, dinheiro ou tantos amigos assim. As coisas que você está procurando, Montag, estão no mundo, mas a única possibilidade que o sujeito comum terá de ver noventa e nove por cento delas está num livro.”

Mas… eis que no posfácio da obra, o autor reforça a fala de um personagem para defender a sacralização da arte e da estética, menosprezando críticas feitas por minorias aos seus livros, como incluir mais personagens femininos e negros, por exemplo. O trecho que ele destaca é: “Lembre-se, Montag, quanto maior seu mercado, menos você controla a controvérsia! Todas as menores das menores minorias querem ver seus próprios umbigos, bem limpos.”. Esse tema é muito interessante e espero escrever de forma mais aprofundada sobre ele qualquer dia desses, mas, só para se ter uma ideia da opinião do autor, seguem alguns trechos abaixo:

“Pois este é um mundo louco e ficará mais louco se permitirmos que as minorias — sejam elas de anões ou gigantes, orangotangos ou golfinhos, adeptos de ogivas nucleares ou de conversações aquáticas, pró-computarologistas ou neo-ludditas, débeis mentais ou sábios — interfiram na estética. O mundo real é o terreno em que todo e qualquer grupo formula ou revoga leis como num grande jogo. Mas a ponta do nariz do meu livro ou dos meus contos ou poemas é onde seus direitos terminam e meus imperativos territoriais começam, mandam e comandam. Se os mórmons não gostam das minhas peças, eles que escrevam as deles.”

“Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos. Cada minoria, seja ela batista, unitarista; irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista; sionista, adventista-do-sétimo-dia; feminista, republicana; homossexual, do evangelho-quadrangular, acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar o querosene e acender o pavio.”

“Beatty, o capitão dos bombeiros em meu romance Fahrenheit 451, explicou como os livros foram queimados primeiro pelas minorias, cada um rasgando uma página ou parágrafo desse livro e depois daquele, até que chegou o dia em que os livros estavam vazios e as mentes caladas e as bibliotecas para sempre fechadas.”

Trata-se de um típico argumento de opressor, respirei fundo e não deixei isso contaminar completamente a experiência com o livro. E, apesar das minhas personagens femininas preferidas receberem um péssimo fim – uma é assassinada e outra simplesmente desaparece – eu internalizei comigo a força delas. Falando nisso, ainda no posfácio do livro, o autor lembra que na adaptação para o cinema, Truffaut “resgatou Clarisse do esquecimento e a colocou entre os Homens-Livro que vagavam pela floresta” (o grupo de resistência da história, em que algumas pessoas ficam responsáveis por decorar livros inteiros) – este é um dos motivos, inclusive, para eu gostar mais do filme do que do próprio livro.

Recomendo a leitura dessa crítica feminista do livro, que acalmou meu coração.

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